Este texto fornece uma visão sobre os métodos qualitativos de pesquisa, baseado nas partes 1 e 2 e do livro de Uwe Flick (Flick, 1996) – Introdução à pesquisa Qualitativa, 3Ed..
Os métodos qualitativos de pesquisa tiveram as suas origens na antropologia e sociologia (estudos de grupos de indivíduos e suas interações), tendo se expandido para as ciências sociais, ciências sociais aplicadas, sistemas de informação, ciência da computação e para as demais ciências.
A sua principal contribuição na administração e sistemas de informação é apoiar a interpretação de fenômenos complexos nas organizações (e.g. firmas), que são complexos arranjos sócio-técnicos. Exemplos destes fenômenos podem incluir a interpretação do desempenho superior no período 2008-2011 em uma firma, da desmotivação de um grupo de funcionários em uma segunda firma ou da análise do fracasso de implantação de um ERP (Enteprise Resource Planning) em uma terceira firma.
A pesquisa qualitativa é orientada para a análise de casos particulares e concretos em um determinado tempo e espaço geográfico. O objetivo da pesquisa qualitativa é buscar interpretações sobre fenômenos particulares sobre o sujeito em seu contexto, tão complexos que dificultam ou impossibilitam a realização de estudos empíricos para a determinação de causa e efeito, como realizado normalmente nos métodos quantitativos.
Os métodos qualitativos podem ser decompostos, em linhas gerais, em três abordagens de pesquisa, segundo Uwe Flick.
- o interacionismo simbólico, que trata dos estudos dos significados subjetivos e das atribuições particulares ao sentido de cada pessoa;
- a etnometodologia, que trata das rotinas do cotidiano e sua produção;
- posturas estruturalistas ou psicanalíticas, que lidam os processos inconscientes psicológicos (indivíduo) ou sociais (grupos de indivíduos).
Interacionismo simbólico
- seres humanos agem em relação aos significados que as coisas tem para eles;
- que os significados são resultantes da interação social que se tem com o outro; e
- que estes significados são controlados por um processo interpretativo e modificados através deste processo utilizado pela pessoa ao lidar com as coisas que se depara.
O ponto de partida desta pesquisa, então, são as diferentes formas com as quais os indivíduos revestem de significados os objetos, eventos e experiências.
Etnometodologia
A etnometodologia, cuja escola de pensamento foi fundada por Harold Garfinkel, lida com a questão de como pessoas produzem a realidade social no processo interativo. Segundo (Garfinkel, 1967), os estudos etnometodológicos analisam as atividades cotidianas como métodos de indivíduos destinados a tornar estas atividades racionais e relatáveis a todos os propósitos práticos.
As três suposições básicas da etnometodologia, conforme (Heritage, 1985) são:
- a interação organiza-se estruturalmente;
- as contribuições da interação tem formato de contexto, sendo também renovadoras de contexto; e
- duas propriedades são inerentes aos detalhes da interação, de forma que nenhum tipo de detalhe na interação conversacional possa ser descartado a priori como desordenado, acidental ou irrelevante.
Análise das diferenças das perspectivas
O esquema abaixo, proposto por Uwe Flick, fornece uma visão geral de análise de cada uma destas perspectivas qualitativas.
O interacionismo simbólico pare dos sujeitos envolvidos em uma situação de pesquisa e dos significados que esta situação tem para eles.
A etnometodologia parte da interação no aconselhamento, estudando o discurso. Nesta abordagem, os significados subjetivos dos indivíduos são considerados menos importantes do que o modo pelo qual a conversa é formalmente organizada. Os contextos culturais só se tornam relevantes no contexto do modo como são produzidos ou continuados na conversa.
Finalmente, os modelos estruturalistas questionam que práticas implícitas (presentes na estrutura) governam as ações explicítas na situação e quais estruturas latentes ou inconscientes geram atividades. As opiniões ubjetivas e as perspectivas interativas são de especial relevância como meios de exposição ou reconstrução de estruturas.
Elementos em comuns nas perspectivas qualitativas
Em comum, todas as correntes de pesquisa qualitativa tem:
- a compreensão (verstehen) como princípio epistemológico;
- a reconstrução de casos como pontos de partida do estudo;
- a construção da realidade social como base;
- o texto como material empírico.
A construção e compreensão dos textos
Os textos tem o papel central na pesquisa qualitativa e servem a três propósitos, segundo Uwe Flick:
- representar os dados essenciais de um estudo;
- fornecer a base para as interpretações de um estudo;
- ser o meio central para a apresentação e comunicação de descobertas.
Esta argumentação é pilar para hermenêutica objetiva, que usa a textualização do mundo o elemento mais geral e comum para os métodos de pesquisa qualitativa.
O esquema da figura abaixo (Flick) resume este processo. O texto é usado para construir a realidade social, que será então alvo de interpretação (a compreensão ou atribuição de significado).
A mimese, objeto da próxima seção, é um instrumento usado pelo pesquisa para este fim.
Mimese
A mimese (ou imitação) é um conceito extraído da estética e das ciências literárias. Segundo (Gebauer e Wulf, 1995), na mimese o indivíduo assimila o mundo via processos miméticos. A mimese possibilita que os indivíduos saiam de si mesmos, tracem o mundo exterior dentro de seu mundo e dêem expressão a sua interioridade. O pesquisador cria então uma proximidade, de outra maneira inalcançável com os objetos do seu estudo, sendo assim uma condição necessária à compreensão destes objetos.
Os processos mimétivos segundo Ricouer (Ricouer, 1984), ao lidar com processos literários, os processos miméticos podem ser situados como a interação da construção e da interpretação e das experiências. O esquema da figura baixo reflete esta visão.
Exemplo: Métodos de Pesquisa Qualitativa em Sistemas de Informação
O esquema abaixo fornece um aplicação do conceito para sistemas de informação. O esquema foi baseado no artigo Qualitative Research in Information Systems, Michael Myers.
O plano de pesquisa
O plano de pesquisa qualitativa é de, forma geral, mais complexa que na pesquisa quantitativa. Para isso é importantes compreendermos quatro questões centrais neste plano:
- o processo e teoria de pesquisa qualitativa;
- as questões de pesquisa;
- a entrada no campo de pesquisa;
- a amostragem de dados;
O processo e as teorias
A última assume que o processo de pesquisa e mais ou menos linear, i.e., cada etapa pode ser habilmente organizada em uma sequência linear de etapas conceituais, metodológicas e empíricas. Na pesquisa qualitativa, entretanto, há uma maior interdependência de todas as partes do processo, o que requer um nível bem maior de atenção do pesquisador.
O processo linear da pesquisa quantitativa
Em mais detalhes, a pesquisa quantitativa assume que o pesquisador:
- tenha bom conhecimento teórico sobre o assunto, seja da leitura prévia ou de descobertas empíricas anteriores;
- da formulação de hipóteses, que são operacionalizados e testadas sobre as condições empíricas;
- as teorias são testadas e então validadas (ou falseadas).
Nas abordagens de pesquisa qualitativas, como por exemplo na teoria fundamentada (grounded theory), a preferência do pesquisador é para os dados e ao campo de estudo, ao invés de suposições teóricas.
As pessoas selecionados para a pesquisa são escolhidas devido à sua relevância ao tópico da pesquisa, e não a sua representatividade. O objetivo, segundo Flick, não é reduzir a complexidade, mas em aumentar a complexidade através da inserção do contexto. Os métodos, desta forma, devem ser escolhidos de acordo com o contexto.
A teoria na pesquisa qualitativa, surge apenas quando a estrutura teórica do assunto apareça estruturado pelas pessoas alvo do estudo.
A figura abaixo compara e contrasta estas duas abordagens:
As teorias no processo de pesquisa como versões do mundo
De acordo com Goodman, teorias não são representações de determinados fatos, mas versões ou perspectivas através dos quais o mundo é visto. Desta forma, as teorias enquanto versões do mundo tornam-se preliminares e relativas. Em outras palavras:
“A compreensão prévia dos fatos em estudo deve ser considerada preliminar, devendo ser excedida com informações novas, não-congruentes”, Flick, 1982
As questões de pesquisa
As questões de pesquisa são fundamentais para os pesquisador. As questões centrais podem ajudar a determinar os métodos adequados para a sua resolução e, assim, os procedimentos metodológicas apropriados.
O esquema abaixo resume os passos básica para as questões de pesquisa:
A entrada no campo de pesquisa
A entrada no campo é um desafio na pesquisa qualitativa, dado que o objeto não é passivo, mas parte da pesquisa. Por exemplo, um questionário usado em uma pesquisa quantitativa é bem mais simples de ser obtido que uma entrevista estruturada em uma pesquisa qualitativa. O questionário gera uma amostra, um número, um dado apenas para uso em métodos quantitativos. Na entrevista, por outro lado, existe uma interação concreta entre o pesquisador e o pesquisado.
Um elemento importante para a entrada no campo é a questão dos papéis dos membros no campo, resumido no esquema a seguir:
- observar os membros, interagir com os membros, participar com os membros (Escola de Chicago);
- participação investigativa (Sociologia existencialista);
- membro de periférico, membro ativo, membro completo (Adler e Adler)
- membro de boa fé (etnometodologia).
A Escola de Chicago possui um distanciamento maior com o objeto da pesquisa. No outro extremo, a etnometodologia propõe uma inserção completa, uma fusão completa com o objeto de pesquisa.
O acesso às instituições é também uma questão crítica. Neste aspecto, as seguintes considerações devem ser observadas segundo Flick:
- A pesquisa é sempre uma intervenção em um sistema social;
- A pesquisa é um fator de ruptura em relação ao sistema sendo estudado; ao qual ele reage defensivamente;
- Existe uma opacidade mútua entre e o projeto de pesquisa e o sistema social a ser pesquisado;
- A troca de um grande volume de informações sobre a entrada no campo de pesquisa não reduz a opacidade. Em vez disso, leva a uma complexidade cada vez maior e talvez “reações imunes”.
- Em vez de compreensão mútua no momento de entrada, deve-se lutar por um pelo acordo enquanto um processo.
- A proteção de dados é necessária, mas pode contribuir para o aumento da complexidade no processo de acordo.
- O campo revela a si mesmo quando o projeto de pesquisa entra em cena, por exemplo, percebem-se os limites de um sistema social.
- O projeto de pesquisa nada deve oferecer ao sistema social. Quando muito, deve ser funcional. O pesquisador deve tomar o cuidado de não fazer promessas sobre a utilidade de pesquisas para o sistema social.
- O sistema social não possui razões reais para rejeitar a pesquisa.
O acesso a indivíduos que possam contribuir fortemente com o objeto estudado é também fator crítico de sucesso. Entretanto, estas pessoas tendem a ter pouco um nenhum tempo para isso e portanto a capacidade de negociação do pesquisador é crítica para que os indivíduos adequados sejam mobilizados.
Finalmente, o pesquisador deve escolher também o seu papel no campo de pesquisa: estranho, visitante, principiante e insider. Cada papel implicará em táticas específicas de atuação para a coleta de dados.
Estratégias de amostragem
A questão da amostragem emerge em diferentes locais da pesquisa qualitativa, conforme esquema abaixo:
Estágio na pesquisa Método de amostragem
Coleta de dados Amostragem de casos ou grupos de amostragem de dados
Interpretação dos dados Amostragem do material; amostragem dentro do material
Apresentação das Amostragem da apresentação
descobertas
Flick (página 81) (apud Wiederman) apresenta duas possíveis abordagem para a determinação de amostras em uma pesquisa. A pesquisa qualitativa, segundo Glaser e Straus, deve usar preferencialmente a amostragem teórica.
Em resumo, na pesquisa qualitativa, a seleção não é normalmente totalmente realizada a priori, mas sim um processo gradual que pode ocorrer ao longo da pesquisa (processo não-linear de coleta de dados).
Flick sugere um conjunto de critérios norteadores ou estratégias possíveis para a amostragem na pesquisa qualitativa:
- determinação “a priori”;
- coleta completa;
- amostragem teórica;
- amostragem de caso extremo;
- amostragem de caso típico;
- amostragem de variação máxima;
- amostragem de intensidade;
- amostragem de caso crítico;
- amostragem de caso delicado;
- amostragem de conveniência;
- seleção primária
- seleção secundária;
Análise Crítica do Livro
Este texto endereçou um conjunto de critérios de pesquisa qualitativa fundamentadas no livro de Uwe Flick (Parte 1 – Da Teoria ao Texto e Parte 2 – Plano de Pesquisa).
O livro, em linhas gerais, é muito bem fundamentado e escrito. Embora o livro possua como enfoque central a psicologia e ciência sociais, as suas técnicas podem ser estendidas com alguma abstração para outras áreas (ciências exatas ou biológicas) e áreas difusas como sistemas de informação ou ciências atuariais, por exemplo.
O autor é uma das principais referências em pesquisa qualitativas em ciências sociais e possui já um trabalho de uma vida na área, o que confere ainda mais respeito ao escrito.
Assume-se alguma familiaridade do leitor com o trabalho de alguns sociólogos e psicólogos, o que o torna um tanto árido para pesquisadores de outras áreas. Uma crítica construtiva ao texto seria torná-lo mais simples no seu primeiro capítulo com exemplos, especialmente de outras disciplinas.
Um ponto de atenção para o pesquisador é que o mesmo não deve buscar a pesquisa qualitativa como um refúgio por não dominar técnicas quantitativas (matemática e estatística). Certamente, muitos problemas em administração e sistemas de informação podem ser melhor resolvidos pelo uso de elementos quantitativos. Eventualmente, uma combinação (triangulação de técnicas qualitativas e quantitativas) é o melhor ataque a um determinado a problema de pesquisa em administração e sistemas de informação.
Referências Bibliográficas
Adler, P.A., Adler, P. Membership Roles in Research Field, Beverley Hills, CA, Sage, 1987.
Gebauer, G, Wull, G. “Mimesis: Culture, Art, Society”. Berkeley, CA: University of California Press, 1995.
Glaser, B. G., Strauss, A. L. “The Discovery of Grounded Theory: Strategies for Qualitative Research: New York”, Aldine.
Myers, M. D. “Qualitative Research in Information Systems,” MIS Quarterly (21:2), June 1997, pp. 241-242. MISQ Discovery, archival version, June 1997, http://www.misq.org/discovery/MISQD_isworld/. MISQ Discovery, updated version, last modified: August 10, 2011 www.qual.auckland.ac.nz
Ricouer, P. “Time and Narrative”, Vol 1, Chicago: Universisty of Chicago Press, 1984,

